segunda-feira, 7 de maio de 2007

Jogo do Rafael

***A única diferença que existia entre o centroavante e a bola era uma cultura popular de fórmula unânime: a bola deveria ser redonda, o centroavante, não. Talvez até por isso os negros pares da chuteira de Pelé demonstrassem uma certa extravagância narcista, do jogador. Uma personalidade ímpar para um jogador popular. Ou populesco, como costumava dizer Martinha. A garota de cinta-liga verde e uma tônica frontal muito rígida. Era uma peculiaridade entre as meninas da região, mas ela sabia, já tinha dormido com uma porção deles. Talvez não fosse tão redonda quanto a bola nem tão lustrosa quanto as chuteiras, mas com apenas um olhar, poderia dar fim àquele jogo. De mentiras. De futebol. De popularidade duvidosa que dentro das quatro linhas não condiziam com as quatro paredes. Era tudo uma questão de olhar. Talvez de cima, pro gramado. Ou talvez de baixo, pro jogador. E ele saberia que a insatisfação não era futebolística. As bolas que agora se batiam eram outras. E toda aquela criação em campinhos de areia tivesse sido em vão. Quiçá ele já não estivesse mais com a bola toda, de outrora, de tempos de glória. Um contraste com o que ela via na TV e sentia no sofá. Na cama. Na mesa. Uma mesa redonda que certamente causaria um estranhamento a meninas inocentes, simples fãs e admiradoras dos craques da bola. Mas pra ela não, estava em condição superior. Mais simples do que fechar as pernas de um goleiro para evitar o frango era fechar as suas pernas e evitar que ele entrasse com bola e tudo. E ao vê-lo ser derrotado em campo, sadicamente sorria: "De verde hoje, só a grama do estádio".

Palavras: diferença-centroavante-cultura-negros-extravagância-personalidade-peculiaridade-olhar-insatisfação-criação-contraste-estranhamento.

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