quarta-feira, 2 de maio de 2007

Jogo da Cláudia Flores

Não lembrava exatamente há quantos anos anos eu não subia naquelas arquibancadas. Minha memória trazia apenas a imagem do meu pai a me levar pelo braço a assistir aos treinos do time do Zequinha, e eu a correr e pular ali como se nem o campo nem os jogadores existissem. Tempos depois, eu com quatorze, não tinha porque não sentir um profundo tédio em rever aquela cena. Um desgosto adolescente em não ser criança nem adulto. Curiosamente, a mesma perspectiva que me faria ver naquele treino uma diferença em relação a todos os outros.

O centroavante atraía a atenção de todos os expectadores. Um negrinho pequeno e ligeiro, que cortava a área com velocidade. Meu pai certamente estaria pensando aquilo que sempre repetia. "É da cultura e do sangue de cada raça. Os negros podem não servir pra nada, mas são os melhores esportistas." Mas o meu olhar de quatorze anos estava paralisado sobre o zagueiro. No meio daqueles negros todos, só o que eu enxergava eram os cabelos louros do capitão do time. Devia medir um metro e noventa, tinha músculos, uma extravagância. Tocava na bola com personalidade. Gritava alto e forte. Só podia ser o homem mais lindo do mundo.

Quando coloquei meus olhos sobre o zagueiro, rezei para que seu olhar em algum instante parasse em mim. Qual seria seu nome? Seria casado? Eu sentia uma imensa angústia. Fui para a rede da arquibancada, corria pra lá e pra cá, mas nada. E não conseguia esconder a insatisfação. "Que foi, guria?" - indagava o pai. "Nada, pai. Nada, nada." Meu pai ficava ali, criticando todo o tempo a criação das jogadas. Dizendo que o técnico não prestava. E acabou falando mal do meu zagueiro. Quase chorei.

Fui embora de mal com meu pai e ele sequer entendeu o porquê. Ele nunca veria o contraste das pernas daquele zagueiro no meio da área. Aliás, eu nunca havia reparado nas pernas de um homem. Isso me causou certo estranhamento. Mas naquela hora, eu só pensava num jeito de convencer o meu pai a voltar no dia seguinte.

Palavras: Diferença. centroavante. cultura. negros. extravagância. personalidade. olhar. insatisfação. criação. contraste. estranhamento.

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