Sapucairana do que mesmo?
Quando o Carlão bateu no peito e disse, em meio ao brinde de sua colação de grau, “Vou para Sapucairana do Sulaque”, a surpresa foi grande. Nenhum convidado entendeu. Nem mesmo a Dona Odila, a qual havia propagado, orgulhosamente, que o filho acadêmico tinha planos promissores para a carreira profissional e considerava fazer a especialização e mestrado no exterior, após o exame da Ordem - e agora o Carlinhos aprontava essa!
Alguns parentes e amigos entreolharam-se, compartilhando expressões questionadoras. “Sapucairana do quê?”. Houveram aqueles que balançaram a cabeça e limitaram-se a explicitar um sonoro “hummm...”, enquanto outros buscavam na memória alguma lembrança desse lugar: uma nota no jornal, um amigo que tenha viajado para... para... para esse lugar que o Carlão havia dito! Todos sabiam que situava-se no Sul do Estado. E só. Que diabos ele faria lá?
Hipóteses não faltaram, cada mesa apostava em uma razão para a mudança, até então desconhecida. O motivo mais recorrente discorria acerca de uma nova namorada. Mas a Dona Odila gostava tanto das namoradas do Carlinhos! Sempre tão prestativa! Fazia questão de explicar, mostrar e ensinar para a candidata à nora tudo que agradava o filhote tratando-se de mesa e banho – quanto à cama, ela preferia abster-se.
Era tudo muito suspeito. O Carlão gostava de festa, TV a cabo, banda larga, caixa eletrônico 24h, AM/PM Express, Blockbuster, Mc Donalds, cidade grande! Dona Odila bem que tentou obter uma informação aqui, outra ali; uma conversa telefônica, outra pelo msn; alguma anotação jogada em cima da escrivaninha, ou perdida em algum bolso, que lhe esclarecesse aquilo que o filho não declarava, a não ser quando dizia “Eu sempre quis conhecer, mãe.”
Depois de 3 semanas, as malas estavam no chão da plataforma da estação e o exame marcado para dali 4 meses. Dona Odila estava acompanhada de vários lenços de papel e do Caco, seu bichinho felino. A partida havia sido precedida por uma festa de despedida com aqueles mesmos amigos, mas somente com alguns parentes, fato que explicava o cabelo desalinhado, as olheiras e bocejos constantes de Carlão naquele meio-dia. As testemunhas entreolhavam-se (ainda surpresos) dividindo, mutuamente, o pensamento de “Não é que ele está indo mesmo?”. E foi.
Tarde da noite daquele mesmo dia, Carlinhos, diretamente de Sapucairana do Sulaque, ligou para casa, atendendo às recomendações de Dona Odila. Sim, iria dormir cedo, alimentar-se bem e não esquecer o corticóide.
Quando Dona Odila preparou-se para deitar, passou antes no quarto do filho, agora vazio. Soltou um grande suspiro e, no momento em que estava fechando a porta, deteve-se em um envelope que trazia seu nome na frente, escorado em um porta-retrato, com a foto dos dois, no último Dia das Mães. Reconhecendo a distinta letra do filho, abriu o envelope e desdobrou um pequeno pedaço de papel:
Mãe,
Minha partida foi hoje, dentro de 3 meses estarei de volta. Sim, 3 meses, esse é o tempo que estipulei para percorrer todo o Estado de bicicleta. Por isso decidi vir para Sapucairana, ponto do extremo sul e, agora, meu ponto de partida e chegada.
Não fique magoada por eu não ter lhe dito antes os reais motivos da viagem, sei que ficarias preocupada, mas procures entender que é a única chance que tenho de viver uma aventura dessas antes de ter a vida ditada por rotinas judiciais.
Ligarei sempre que possível e não esquecerei os corticóides!
Beijos, Carlos
Dona Odila acabou de ler o bilhete, pegou o telefone e ligou para a estação local. Estava fechada. Não importava. Durante toda a madrugada, arrumou as malas freneticamente, decidida a embarcar para Sapucairana do Sulaque na manhã seguinte, antes que o Carlinhos partisse naquela loucura descabida!
domingo, 22 de abril de 2007
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